Por que dói mais do que o índice
O café pesa 0,53% no IPCA. Na lista fixa, a linha do café dobrou. O item que a memória guarda quase não move o índice do país.
O que o caixa cobra
O IPCA responde quanto o preço médio subiu. Quem faz a compra pergunta outra coisa: quantos reais saíram nesta lista, e que parte da renda isso comeu. As duas respostas cabem. Nenhuma substitui a outra.
O café pesa 0,53% no IPCA. Na lista fixa, a linha do café dobrou. O item que a memória guarda quase não move o índice do país.
Estas linhas foram de R$ 513,79 para R$ 589,79, variação +14,8%. A média geométrica ponderada foi +13,9%. O real da linha anda junto com o percentual.
É o menor preço entre as marcas de maior saída. A marca de sempre pode custar mais. Essa diferença não está nesta base, e não foi estimada.
Quantidades da Região 1 do decreto 399, a lista do Dieese em São Paulo: carne, leite, feijão, arroz, farinha, batata, tomate, pão, café, banana, açúcar, óleo e manteiga. O preço é o do Procon-SP. O peso é a fatia da linha nessa soma. A mudança no bolso é a diferença em reais e a variação em %. Faltam tomate, banana e manteiga. O óleo não entra aqui porque o decreto pede 750 g e a pesquisa mede 900 ml. A soma não é a cesta fechada.
+R$ 50,88+20,2%
R$ 252,06 em dez/21 → R$ 302,94 em ago/2026, variação +20,2%
Peso agora 51,4%, era 49,1%. Não é variação de preço. O decreto diz carne bovina de primeira. Não é picanha.
+R$ 11,26+60,6%
R$ 18,58 em dez/21 → R$ 29,83 em ago/2026, variação +60,6%
Peso agora 5,1%, era 3,6%. Não é variação de preço. O quilo sai do pacote de 500 g. A lista pede 600 g.
+R$ 10,62+10,9%
R$ 97,26 em dez/21 → R$ 107,88 em ago/2026, variação +10,9%
Peso agora 18,3%, era 18,9%. Não é variação de preço. Quilo do pão francês na pesquisa.
+R$ 8,32+24,1%
R$ 34,58 em dez/21 → R$ 42,90 em ago/2026, variação +24,1%
Peso agora 7,3%, era 6,7%. Não é variação de preço. Um litro na pesquisa, vezes 7,5.
+R$ 1,98+5,4%
R$ 36,86 em dez/21 → R$ 38,84 em ago/2026, variação +5,4%
Peso agora 6,6%, era 7,2%. Não é variação de preço. Pacote de 1 kg.
+R$ 0,23+1,9%
R$ 12,13 em dez/21 → R$ 12,35 em ago/2026, variação +1,9%
Peso agora 2,1%, era 2,4%. Não é variação de preço. O quilo sai do pacote de 5 kg.
-R$ 1,79-14,8%
R$ 12,13 em dez/21 → R$ 10,34 em ago/2026, variação -14,8%
Peso agora 1,8%, era 2,4%. Não é variação de preço. O quilo sai do pacote de 5 kg.
-R$ 2,31-27,0%
R$ 8,57 em dez/21 → R$ 6,26 em ago/2026, variação -27,0%
Peso agora 1,1%, era 1,7%. Não é variação de preço. Quilo na pesquisa.
-R$ 3,18-7,6%
R$ 41,64 em dez/21 → R$ 38,46 em ago/2026, variação -7,6%
Peso agora 6,5%, era 8,1%. Não é variação de preço. Quilo na pesquisa.
R$ 513,79 → R$ 589,79+14,8%
Soma destas linhas, não da cesta fechada. O peso muda porque os preços mudam: a carne continua a maior fatia. O café pesa pouco na soma e muito na memória.
Margarina, macarrão e sabão em pó o Procon mede. O decreto não diz quantos a casa compra por mês, então aqui é um pacote — a unidade da pesquisa. Inventar “dois potes por semana” seria chute. Óleo aparece pelo mesmo motivo: a unidade não fecha com os 750 g do decreto.
-R$ 1,05-12,2%
R$ 8,60 → R$ 7,55, variação -12,2%
O decreto pede 750 g de banha ou óleo. Não converti mililitro em grama.
-R$ 0,31-7,6%
R$ 4,10 → R$ 3,79, variação -7,6%
O decreto lista manteiga, 750 g. Margarina não entra no lugar.
-R$ 0,12-3,4%
R$ 3,51 → R$ 3,39, variação -3,4%
Não está na cesta do decreto. Um pacote, não o mês da casa.
+R$ 0,31+2,8%
R$ 11,07 → R$ 11,38, variação +2,8%
Limpeza, fora da comida. Um quilo pesquisado, não a lavagem do mês.
O piso nacional foi de R$ 1.212,00 em dez/2022 para R$ 1.621,00 em ago/2026 (+33,7%). Não é o salário da casa. É o único rendimento publicado que dá para pôr ao lado da cesta em todas as datas. Quem ganha o piso e quem teve a renda parada em reais não sentem a mesma coisa.
| Capital | Cesta, dez/2022 | Cesta, ago/2026 | Fatia do piso, antes | Fatia do piso, agora |
|---|---|---|---|---|
| São Paulolista Centro-Sul | R$ 791,29 | R$ 900,59 · +13,8% | 65,3% | 55,6% |
| Rio de Janeirolista Centro-Sul | R$ 752,74 | R$ 851,19 · +13,1% | 62,1% | 52,5% |
| Brasílialista Centro-Sul | R$ 728,78 | R$ 734,35 · +0,8% | 60,1% | 45,3% |
| Fortalezalista Norte/Nordeste | R$ 653,99 | R$ 755,56 · +15,5% | 54,0% | 46,6% |
| Salvadorlista Norte/Nordeste | R$ 570,70 | R$ 628,89 · +10,2% | 47,1% | 38,8% |
| Belo Horizontelista Centro-Sul | R$ 696,32 | R$ 759,55 · +9,1% | 57,5% | 46,9% |
| Manauslista Norte/Nordeste | — | R$ 666,02 | — | 41,1% |
A cesta de São Paulo em ago/2026 custa R$ 900,59. No piso vigente, isso é +55,6%. Se a renda tivesse parado nos R$ 1.212,00 de dez/2022, a mesma cesta comeria +74,3%. A fatia cai quando a renda sobe mais que a cesta. O real que saiu no caixa não volta.
A parte de alimentação da cesta ampliada do Procon-SP, outra lista, foi de R$ 1.069,30 para R$ 1.149,30, variação +7,5%. Também não é a marca fiel.
Alimentação no domicílio, o subíndice do IPCA, subiu +14,0% de dezembro de 2022 a set/2026. Não é o recibo acima. No IPCA isso pesa 15,4% do índice, cerca de +2,2% no custo de vida médio. Se na sua casa a comida leva uma fatia maior da despesa, o mesmo preço pesa mais. Arraste. O número não é uma pesquisa da sua família até você dizer a fatia.
15,4% da despesapesa +2,2%